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A areia fina e os dedos no chinelo arrastado

O elevador elevava a lerdeza. Entravam no cubículo, um a um, sapatos e gravatas. Uma gravata vinho com listras diagonais, uma gravata azul com relevo. Um sapato bicudo de bruxa, preto. Outro sapato preto bicudo de bruxa. Tudo elevava a alma dos viventes no elevador. Oitavo andar. Sobe. Eleva.

O corredor gelo com janela.

A maquininha que registrava a hora. A hora das estrelas de gravata e sapato de bico de bruxa. Operação realizada com sucesso. Tlim.

O gosto azul do carpete estranho. E no fim do fim do caminho a porta da coletividade individualista. Um, dois, dezoito computadores.  Vinte e cinco anos.

Adeus.



Escrito por Dani Dias às 19h48
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De jangada leva uma eternidade...

Peguei-me, dia desses, tentando me lembrar do nome da minha avó materna. Engraçado, passei a infância inteira a chamando de Mãezinha e, no fim das contas, eu sequer havia parado para pensar em seu verdadeiro nome. Parei um instante e resgatei lá no fundo da caixa da memória: Maria José. O nome dela é Maria José.

 

Mãezinha está ficando cega e, hoje, lhe doem as pernas: são as notícias que tive por MSN.

 

MSN???

 

É. A Bahia do meu imaginário não é a mesma em que vivem hoje alguns dos meus parentes. De lá, a esposa de um primo meu encontrou-me no Orkut, adicionou-me no MSN e disse: “Oi, Daniela, sou mulher de seu primo. Sua tia e sua avó morrem de saudades de você. Vou te mandar as fotos dos meus filhos”.  Tudo bem, Camaçari, é uma cidade grande perto de Queimadas, onde minha mãe nasceu, mas admito que fiquei chocada ao receber notícias de pessoas que estavam como em outra dimensão para mim.

 

A Bahia da minha mãe era uma Bahia de caçar piabinha no rio para não morrer de fome. Uma terra analfabeta e com homens com sede de mulher nova e virgem. Uma terra de apanhar de cinta e sonhar com São Paulo.

 

E, agora, a Bahia dos priminhos novos tem MSN e WEBCAM.



Escrito por Dani Dias às 12h47
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pingos de mim

Uma das minhas manias mais marcantes é querer sempre me dar bem com todo mundo. Muitas vezes eu não suporto a idéia simples de que, às vezes, isso não seja possível, nem lógico e, quiçá, nem recomendável. Mas é batata, vira e mexe está lá Daniela querendo dar conta de agradar gregos, troianos e extraterrestres.

 

Talvez querer o mundo em que todos são amiguinhos seja não mais do que uma criancice de minha parte, por outro lado, é difícil mudar isso. Sinceramente, na maioria das vezes, é sempre possível enxergar as razões das ações de uma pessoa.

 

 Todo bom entendedor sabe que todos nós já vivemos o papel de mocinhos e vilões nessa vida, por isso mesmo me parece estranho condenar alguém com base em suposições. E é isso que temos no nosso cotidiano, geralmente. Nada mais do que uma idéia de como o outro pensa, de como o outro sente. Suposições baseadas na nossa criação, na forma como aprendemos a enxergar o mundo e na maneira como achamos que as demais pessoas devem se comportar...

 

O que eu queria na verdade era conseguir penetrar no universo ímpar de cada ser, tirando a máscara social daqueles com que convivo. Eu quero contatos porque esse mundo os exige, mas, de verdade, a única questão que faço é de ter amigos. Daqueles bem próximos, daqueles pra rir e chorar junto e contar histórias. E dói quando isso não acontece.

 



Escrito por Dani Dias às 00h01
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ARDOR

 

A dor mata a gente.

A mente mata

A dor.

A roda. A corda.

Roda.

 

A gente teme o arremedo

Medo de remendar

A dor.



Escrito por Dani Dias às 17h51
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Cartas comerciais

 

 

SENHORITA DANIELA,

 

APRENDER A ENGOLIR SAPOS + APRESENTAR UM COMPORTAMENTO COMEDIDO + VESTIR-SE DE ACORDO + PENSAR DE ACORDO+BATER O PONTO+ REBUSCAR O LINGUAJAR

 

=

 

SINAL DE AMADURECIMENTO...

 

SEM MAIS,

SENHOR NOSENSE DO MUNDO CORPORATIVO

 

 

*****

 

 

CARO SENHOR NOSENSE,

 

 

NUNCA FUI REBELDE.

MAS DEVO ADMITIR QUE ENGOLI O RELÓGIO DE PONTO.

E DEVOREI ALGUNS PAPÉIS.

TUDO ISSO  PARA ALIMENTAR O BICHO QUE MORA NA MINHA BARRIGA,

 

SEM MAIS,

 

DANIELA



Escrito por Dani Dias às 14h10
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Acho bacana conseguir passar tranqüilidade para as pessoas. É um jeito de aliviar essa dor dilacerante, e sem razão, que carrego cá comigo.



Escrito por Dani Dias às 11h34
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A Dani fala demais, mas sempre se cala.

 



Escrito por Dani Dias às 20h07
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Quando menina, sempre sonhei em conhecer os autores dos livros que gostava de ler. Eu achava fascinante a idéia de saber quem era o escritor de toda aquela maravilha. Essa pessoa  só poderia ser mesmo muito especial.

 

Eu cresci, pelo menos na forma. Quer dizer, apesar de ainda ter uma cabecinha enjoativa de piá, já sou mulher taluda. E conheci alguns escritores. No todo eu não estava enganada nos meus sonhos de infância. Esses homens das letras com quem, por fim, cruzei o caminho, cada um à sua maneira, têm uma sensibilidade bonita de se ver.

 

O Lourenço Mutarelli, por exemplo, tem uma alma tão delicada e, ao mesmo tempo, tão destrutiva que chega a doer. E é essa dor que ele transforma em literatura, em desenho, em roteiro de filmes.

 

 

O Gabriel Kwak é um homem de impulso, vai levando a vida assim, de bar em bar, acumulando catedrais em seu imenso coração cheio de splim e alegria. Está aqui e ao mesmo tempo está em uma terra pouco acessível. De todos e de nenhum lugar.

 

O Lucas Carrasco é uma dessas pessoas curiosas que surgem do nada na vida da gente. Ele me disse que era meu irmão-anjo e eu acreditei. Ele sempre tem a fala que me salva de um castelo qualquer de fantasias de Quimerópolis ou que me ajuda a enterra-me de vez na masmorra desse mesmo castelo. Ele é poeta. E me manda seus poemas, meus poemas, a poesia de um mundo de todos que se abrem e que se calam.

 

 

É, hoje eu conheço muita gente que escreve.

E percebi que essas pessoas têm uma deliciosa dor nos olhos.

E uma ternura complexa de se compreender.

 

 

 

 

Do meu amigo poeta que tem visão de raio x:

 

“Mãezinha

Debaixo das cobertas da lembrança

Tem mulher que faz bonito um canário

Lavadeira no rio do imaginário

Onde maruja o mouro da chegança

 

Lança a rede lá, pesca a minha trança

Traz o puçá e os santos do rosário

Piso descalça o avesso do contrário

Se o vestido cai bem, quadril balança

 

Abro a gaiola e vôo na tempestade

Contorno o concreto dessa cidade

Tenho de sobra fé, falta o que crer

 

Na seca choro os medos da mulher

Penso na vida não, sinto é saudade

Um prato cheio pra minha colher

29/07/208

#

Sei não dessa coisa de amar, menino

Quando a coisa melhora vou embora

Deixo o vento fazer soar o sino

E a igreja abençoar a pecadora

 

Sem surpresas na caixa de Pandora

Essa realidade que imagino

Foi pra esfera do espaço dos neutrinos

Agora é só esperar passar a hora

 

Mas amei de verdade e na saúde

Quando o padre veio benzer a gente

Vou pedir lá pro céu que me ajude

 

O tempo era livre antigamente

Faz pouco Deus ficou amargo e rude

Deus hoje em dia, coitado dele, mente

30/7/2008”



Escrito por Dani Dias às 19h06
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Sou filha de Iracema e de João Ferreira.
Ela baiana, ele paraibano, ambos fugidos da seca. Chegaram em São Paulo para fazer mundo.
Sou Daniela. Uma mulher de São Paulo, nascida em maternidade de concreto, de parto com anestesia, cesariana, mas com memórias imaginadas de um sertão.

Daquele sertão que minha mãe contava para mim, quentinha, debaixo das cobertas. Dos contos de Maria Bonita, da Pesadela, das mulheres lavadeiras.
E das histórias de meu pai, da vozinha que cozinhava em panela de barro e cantava para mãezinha do céu.

Sou emotiva e racional.
Tenho medo de morrer.
Gosto de andar de pés descalços.
Fui criada achando bonito gostar de Nossa Senhora, de São Jorge e de Iemanjá.
Virei agnóstica. E literária.
Tenho saudades da minha mãe.
Gosto de vestidos rodados.
E vivo realidades imaginárias.
Muito prazer.


Escrito por Dani Dias às 20h22
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O Lucas Carrasco é escritor. E dos bons. Já que eu sou a tia mais coruja de todos os tempos, publico aqui um poema que ele fez para minha sobrinha, Ana Luiza, ninar. Desculpa não ter agradecido antes, mas aqui vai o meu reparo! =)

Analuz

Amparava Analu aqui nos meus olhos
Um bebê, pacotinho feito embrulho
Brinquedo de fazer ninar barulho
Seu mascote é um boneco zarolho
 
Riso instantâneo, sua luz recolho
Junto com meus trecos, monte de entulho
Bulhufas pro boneco assim tortulho
Blusa lambuzada de molho
 
Gostosura da vó, neném mais lindo
Fraco da tia, um calcanhar de Aquiles
Borboleta voando, asas se abrindo
 
Marionete com fitas e cabides
Quando as nuvens no azul vão colorindo
É Analu que engatinha no arco-íris
 

junho 2008

 

 

 



Escrito por Dani Dias às 12h26
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Segundo o Houaiss

Daniellia

 

n substantivo feminino

Rubrica: angiospermas.

design. comum às plantas do gên. Daniellia, da fam. das leguminosas, subfam. cesalpinioídea, que reúne nove spp., nativas das florestas e savanas da África, exploradas pela madeira e pela resina semelhante ao copal

 

 

 

Dan(i)

elemento de composição

antepositivo, do lat. damnum,i 'dano, detrimento, prejuízo, perda, lesão, danificação; multa, pena, castigo, punição', donde damnósus,a,um 'que causa dano, nocivo, prejudicial, daninho, pernicioso; custoso, ruinoso; que gasta muito, pródigo; que sofreu dano, prejuízo', lat.imp. indemnis,e 'que não teve prejuízo, livre de perda ou dano, indene', lat.tar. indemnìtas,átis 'segurança, salvação; indenização, ressarcimento do dano, indenidade', damno,as,ávi,átum,áre 'condenar judicialmente, condenar à pena eterna, privar da bem-aventurança; obrigar por uma cláusula; condenar; censurar, repreender; rejeitar, desprezar; fazer condenar', damnabìlis,e 'condenável, infame, vergonhoso, indigno; repreensível, censurável', damnatìo,ónis 'condenação judiciária, condenação por suborno (em eleições), a condenação eterna; ação de condenar, de rejeitar, repelir, desaprovar', damnátor,óris 'o que condena, condenador; o que rejeita, o que reprova', damnátus,a,um (part. pas. de damnáre) 'condenado; rejeitado, desprezado', damnifìcus,a,um 'malfazejo, daninho, nocivo', donde damnifìco,as 'causar dano, danificar'; também cog. é o v. condemno,as (de cum + damno) 'condenar, acusar; fazer condenar', com os der. condemnabìlis,e 'condenável' , condemnatìo,ónis 'condenação, pena', condemnátor,óris 'o que condena, juiz que pronuncia a sentença de condenação; acusador', condemnátus,a,um 'condenado'; a cognação vern. desenvolve-se desde as orig. do idioma: condenabilidade, condenação, condenado, condenador, condenamento, condenante, condenar, condenatório, condenável; danação, danada, danado, danador, danamento, danante, danar, danável, danificabilidade, danificação, danificado, danificador, danificamento, danificante, danificar, danificável, danífico, daninhado, daninhador, daninhar, daninheza, daninho, danisco, dano 'prejuízo; estrago', danoso, danou-se; descondenação, descondenado, descondenador, descondenar, descondenável; inde(m)nidade, inde(m)nização, inde(m)nizado, inde(m)nizador, inde(m)nizar, inde(m)nizável, inde(m)nizista, indene, indenizacionismo, indenizacionista, indenizacionístico

 

 



Escrito por Dani Dias às 06h54
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Labuta

Há uma dor em ir trabalhar. Profundo avesso da Quimera, assim torturante.

Há uma dor em ir descobrir o que não quero.

Há uma dor em ser sabendo que não se é.

 

Eu quero comer o relógio de ponto.

Eu quero comer a folha de pagamento.

E devorar até a antropofagia.

 

Eu quero comer essa dor.

Essa dor com horário de entrada e sem hora para sair.

Minhas pupilas estão dilatadas.

Meus nervos atropelados pelo cinza abafado, ar-condicionado de idéias prontas.

 

Cadê Diadorim?

Cadê Aurélia?

Cadê Karênina?

 

Cadê aquela mulher que não está mais aqui?



Escrito por Dani Dias às 07h07
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ID faz a festa e vai embora.

Fica o superego... Com cara de sargento, martelando nos miolos...

 



Escrito por Dani Dias às 22h00
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Diana, Álvaro e Daniela

 

 

 

Álvaro de Campos está dormindo. O sofá de sonhos criado por Daniela guarda as fantasias oníricas do poeta, enquanto a anfitriã, sorrateiramente, se esquiva de mais uma conversação e coloca-se junto à janela da realidade.

 

Ao olhar através do vidro embaçado da Quimera, Daniela enxerga, bem ao longe, alguns carros e pessoas. É a Avenida Paulista que parece mais uma mentira do que uma verdade para quem se enfurnou em Quimerópolis por tantos anos.

 

Alguém acena dessa avenida, é Diana.

Diana é uma personagem. E parece estranho à autora que ela, justamente ela que é uma farsa, esteja do lado da vida real.

 

Daniela, meio sem-graça, acena para a jovem que ela mesma criou para ser protagonista de suas histórias. Ainda não compreende por que Diana está do lado de fora de Quimerópolis e se mistura às cores cinzentas e concretas da avenida.

 

Diana apenas sorri.



Escrito por Dani Dias às 15h19
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aí eu disse ao poeta:

chimera

The Oxford Pocket Dictionary of Current English | Date: 2008

chi·me·ra / kīˈmirə; kə-/ (also chimaera) • n. 1. (Chimera) (in Greek mythology) a fire-breathing female monster with a lion's head, a goat's body, and a serpent's tail. ∎  any mythical animal with parts taken from various animals. 2. a thing that is hoped or wished for but in fact is illusory or impossible to achieve. 3. Biol. an organism containing genetically different tissues, formed by processes such as fusion of early embryos, grafting, or mutation. ∎  a DNA molecule with sequences derived from two or more different organisms, formed by laboratory manipulation. 4. (usu. chimaera) a cartilaginous marine fish (Chimaeridae and other families) with a long tail, an erect spine before the first dorsal fin, and typically a forward projection from the snout. DERIVATIVES: chi·mer·ic / kīˈmirik; kə-; -ˈmerik/ adj. chi·mer·i·cal / kīˈmerikəl; kə-; -ˈmir-/ adj. chi·mer·i·cal·ly / kīˈmerik(ə)lē; kə-; -ˈmir-/ adv.



© The Oxford Pocket Dictionary of Current English 2008, originally published by Oxford University Press 2008.


Escrito por Dani Dias às 09h57
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